A viagem de Lucy
Não é fácil ser a mais nova
Olá eu chamo-me Lucy tenho doze anos, vivo com a minha avó Lurdes, o meu primo Leonardo, e a minha cadela Lizi, numa terra perto de Évora.
Estamos perto do natal e daqui a dois, três dias vou poder ver os meus pais, eles trabalham numa companhia aeria muito respeitada, por isso, não vivo com eles.
A minha vida é muito complicada ser a mais nova não é nada fácil, a correria de um lado para o outro, a minha avó está sempre a chamar-me, por tudo e por nada, o meu primo está sempre a gozar comigo por ser a mais nova e não poder fazer aquilo que me apetece eu sou só uma e nunca consigo dizer Não, sou apenas uma miúda de dez anos que quer brincar, estudar, ver televisão e fazer outras coisas que as raparigas da minha idade fazem.
Quando digo a minha avó se posso ir brincar para a casa da minha amiga Xana ela diz logo:
Avó: «Não Lu tens de ajudar a avó a fazer um bolo, além disso o teu primo com a tua idade não ia brincar sozinho para a casa dos amigos, é muito perigoso».
Eu tenho de me controlar para não dizer, avó, o meu primo tem dezasseis anos, eu tenho doze já não podes pensar assim, além disso a Xana mora mesmo aqui ao lado, que perigo é que isso tem?
Mas depois respiro três vezes e penso só faltam mais seis anos para ter a minha liberdade, sim porque quando tiver os dezasseis anos e perguntar a minha avó se posso ir sair com a Xana e quando ela me disser:
Avó: «Não Lu tens de ajudar a avó a fazer um bolo, além disso o teu primo com a tua idade não ia sair sozinho com os amigos, é muito perigoso.»
Eu vou responder:
Eu: «Avó! Eu cresci e agora já tenho dezasseis anos, com a minha idade o Leo já saia com os amigos, já não é perigoso».
Bom, mas até lá vou ter de ir fazendo todos os bolos que a minha avó me pede, porque isso para ela não trás perigo nenhum.
O que se passa?
No domingo de manhã, acordei com uma grande agitação, desci as escadas que dão acesso à sala de estar e foi ai que vi uma inundação de malas espalhadas pela casa, a Lizi ladrava como se não houve-se amanhã, a avó na cozinha a preparar o pequeno almoço entornando tudo em que tocava, mas tal não foi o meu espanto quando vejo o menos civilizado dos quatro sentado à mesa a comer os seus cereais e a olhar para a televisão como se estivesse muito interessado, só por isso, fiquei a perceber que algo se passava, mas não sabia se era bom ou mau.
Eu: «Avó»! Exclamei!
Avó: «Sim Lucy? Vem a da avó!»
Quando cheguei ao pé dela os seus olhos amenizados transbordavam de luz, pareciam dois holofotes apontados para mim.
Eu: «O que se passa avó?»
Ela não respondeu e durante algum tempo tudo ficou estático só se conseguia ouvir o trincar dos cereais do meu primo. Foi para o meu quarto pensando no que poderia estar a acontecer, tive uma brilhante ideia, perguntar ao meu primo e tentar surpreender a minha avó, pois se fosse alguma coisa muito importante e eu me comporta-se de forma exemplar a minha avó passaria a tratar-me da forma que eu sempre desejei como uma rapariga de doze anos!
Vamos para onde?
Para vos explicar o que eu estou aqui a fazer vou ter de vos contar o que aconteceu depois de ter perguntado ao meu primo o que se passava?
Passados uns minutos de ter conversado com a minha avó, chamei o Leo para ir ao meu quarto.
Eu: «Leo, sei que tu achas que eu sou uma menina mimada e que não sabe ser responsável, na verdade, eu também o penso de ti, mas neste momento quero deixar os nossos problemas à parte e queria que me contasses o que se passa cá em casa?»
Leo: «Não te posso contar, pelo menos por enquanto. Tu terás de saber, mas não vou ser eu a contar, terá de ser a avó.»
Eu: «Leo, mas eu só quero ajudar e compreender o que se passa?»
Leo: «Ok, eu conto-te, mas não podes dizer nada e quando a avó te vier contar tens de fingir que ainda não sabias, está bem?»
Eu: «Está bem, mas conta lá!»
Leo: «Os teus pais ficaram retidos em Estocolmo quando estavam a vir para Portugal e não poderão passar o natal connosco, a não ser que…»
Eu: «A não ser que o que?»
Leo: «A não ser que nós passemos o natal lá em Estocolmo.»
Eu: «“Estou calmo”, mas eu nem sei onde isso fica.»
Leo: «Hahahah….»
Eu: «De que te ris? Isto é um assunto sério.»
Leo: «Sim, mas não é “Estou calmo” que se diz é Estocolmo na Suécia é um País que fica perto da Noruega, da Finlândia, da Dinamarca e de muitos outros países»
Eu: «E é muito longe?»
Leo: «Mais ou menos três ou quatro horas de viagem, se formos de avião.»
Passado esta conversa não consegui dizer muita coisa a não ser quando a minha avó me veio contar:
Eu: «Vamos para onde?»
Nessa altura não foi necessário fingir como o meu primo me tinha dito, porque eu fiquei mesmo aflita e surpreendida, na realidade quando o meu primo me contou eu pensei que os meus pais ainda conseguissem vir a Portugal, para passarem o Natal connosco. Mas agora vejo que não, pois estou no aeroporto pronta para fazer o “checo ir”.
Onde é a WC?
Depois de estar duas horas a espera para entrar para a sala de embarque, depois de ter visto uma enchente de pessoas à minha volta, umas a terem de voltar para trás, porque levavam objectos que faziam com que a maquina apitasse uma centena de vezes, outras porque se esqueciam de alguma coisa no carro, finalmente estava eu, a avó e o Leo, prontos para seguir para o avião, quando:
Eu: «Avó, avó?»
Avó: «Lu comporta-te, não grites eu estou mesmo aqui.»
Eu: «Mas, avó eu preciso de fazer “xixi”!»
Avó: «Agora Lu? Agora estas quase a entrar para o avião.»
Eu: «Mas estou muito aflita, uma casa de banho? Onde esta um casa de banho?»
Avó: «LUCY, comporta-te já não é idade para te comportares assim.» Disse a avó, acho que é a primeira vez que a vejo tão zangada comigo.
Não dei ouvidos à avó e comecei a correr pelo aeroporto à procura de uma WC, já era uma forma mais educada de perguntar, foi ai que vi uma senhora limpando o corredor e perguntei:
Eu: «Desculpe, senhora pode-me dizer onde é a WC?»
Senhora: «WC, minha menina trabalho aqui a vinte e dois anos e nunca ninguém me perguntou pela WC.»
Não percebi porque é que a senhora disse aquilo, será que eles não sabem o que é uma casa de banho, fiquei pensativa e preocupada, porque se assim fosse, não ia aguentar muito mais tempo. Depois ela pegou na minha mão e levou-me para uma sala escura, mas quando carreguei no interruptor, vi que estava numa casa de banho e também vi que estava atrasada para embarcar.
Leo: «Lucy, onde estás? Vamos embarcar daqui a dez minutos.»
Eu: «Estou aqui Leo.»
Depois de ter ouvido um grande raspanete da minha avó, finalmente foi para o avião, para passar o natal com os meus pais em “Estou calmo”.
Mas que viagem.
Hospedeira: «Sentem-se, apertem os cintos que daqui a pouco vamos descolar.»
Assim que o avião descolou, a minha barriga começou a formigar, os meus pés pareciam que tinham ganho asas, as minhas mãos tremiam, a minha cara estava abrigada nos braços da minha avó era assim a imagem. Mas era natural para uma rapariga que nunca tinha andado de avião. O Leu sorria, parecia que as viagens de avião faziam parte do seu dia à dia, a sua cara de felicidade e ao mesmo tempo o brilho dos seus olhos eram chamas incandescentes que nunca apagavam.
Piloto: «Atenção senhores passageiros, por motivos do clima, vamos ter que aterrar na Alemanha até que passe esta nebulosidade, vamos preparar para aterrar, uma boa aterragem»
Eu: «Avó, o que é a “na blusa cidade “?»
Avó: «Lu, não é “na blusa cidade “ é nebulosidade e quer dizer escuridão.»
Aprendo muito com a minha avó, mas não percebi porque é que tivemos de aterrar, agora isso não interessa porque vamos poder comer uma comida melhor que a do avião.
Depois de comer-mos e descansar-mos as pernas tivemos de ir outra vez para o avião, mas antes eu e avó fomos a uma loja que estava no aeroporto e compra-mos uma revista de ponto de cruz para a avó e para mim uma revista de banda desenhada, assim já nos poderíamos entreter na viagem, está bem que o avião tem televisão, mas assim é mais uma ajuda para não adormecer-mos.»
Depois lá seguimos a viagem até “Estou calmo” mas, desta vez já não tive medo de descolar, sim porque na verdade já era a segunda vez que o fazia.
A minha avó lia atentamente a revista, o Leo sonhava com o dia em que pode-se vir a ter um avião como aquele e eu via tudo aquilo que se passava a minha volta com a maior atenção.
Onde estão os presentes?
Depois desta lufa-lufa de andar de um lado para o outro à procura das malas, descobri-mos que não tínhamos os presentes para os pais, a avó entrou em turbulência parecia uma pilha, foi ai que o Leo pergunta a um senhor:
Leo: «Desculpe, desculpe pode-me dizer onde se encontra uma loja para comprar uns presentes engraçados?»
Senhor: «lovja p’ra coprovcas?»
Foi ai que o meu primo Leo se apercebera que não estávamos em Portugal e que não sabíamos falar “cuéco”. Então decidimos chamar um táxi, para nos levar para o hotel onde a mãe e o pai estavam mesmo sem comprar os presentes eles decerto que iriam entender. Pela primeira vez o meu primo teve uma ideia brilhante, pois como nós não sabíamos falar “cuéco”, iríamos falar Inglês, não, não pensem que eu e a avó sabemos falar Inglês, mas o meu priminho diz que sabe, então será ele a falar.
Leo: «“Please, curiamos one táxi.”» Diz para uma rapariga que está na recepção.
Rapariga: «Sorry! I don´t understand? «
Eu: «Leo, porque é que a rapariga te está a mandar sorrir?»
Leo: «Não Lucy esta rapariga não me está a mandar sorrir, ela não deve é saber falar Inglês por isso está a dizer que não percebe o que eu digo é que o meu Inglês é muito perfeito nem toda a gente percebe.»
Eu: «Sim, sim menino espertinho, agora diz-me lá qual é o teu plano “B”?»
Leo: «Plano “B”?»
Eu: «Sim, qual é a tua próxima ideia para arranjar-mos um táxi? A avó está muito preocupada e eu também.»
Depois disto fui para o pé da avó, que estava sentada num banco logo a entrada do aeroporto para a sossegar.
Será uma boa ideia?
Eu: «Já sei!»
Avó: «Já sabes o que Lucy?» Disse a avó olhando para mim como soube-se o que eu ia dizer.
Eu: «Porque não pensei nisto antes? Vamos ligar aos pais e dizer que já estamos em “Estou calmo”, depois eles vêm nos buscar.»
Avó: «Sim Lucy, essa ideia é muito boa, mas assim deixa de ser surpresa.»
Leo: «Lucy a avó tem razão, para além de não levar-mos presentes, eles teriam de nos vir buscar? Não me parece Lu!»
Eu: «Mas será que ninguém pensa nesta família? Vocês preferem passar aqui a noite de natal só por causa de uma surpresa, está bem que era muito mais giro aparecer no hotel sem os pais estarem à espera, mas se forem ver bem assim nem o natal passa-mos juntos…»
Leo: «Mas Lu, tens d….»
Eu: «…Tenho o que? A única coisa que tenho de fazer é ligar aos pais para nos virem buscar. Tenho a certeza que eles vão ficar muito felizes por nos verem e isso sim será a maior surpresa para eles. Por favor pelo menos uma vez dêem-me ouvidos, eu já tenho doze anos, não tenho dez e sei muito bem o que devo fazer numa situação como esta, apesar de saber que a avó está muito desiludida comigo e que neste momento está a pensar que eu sou uma irresponsável, mas eu não me importo, porque eu sei que o que estou a fazer é para o bem da nossa família.»
Depois deste meu discurso muito sentimentalista, agarrei no telemóvel e liguei para os meus pais. Eles disseram que iriam já ter connosco, para nós não sairmos dali, eu deixei-me rir, porque no fundo eu lhes liguei por não ter conseguido arranjar um táxi e agora eles disseram para nós não sair-mos daqui.
Bom, vamos ficar à espera deles, sentados neste banco.
Finalmente juntos!
Eu: «MÃE, PAI!»
Gritei o mais que pude ao ver a cara suada do meu pai e as maças do rosto rosadinhas da minha mãe, senti um alívio ao vê-los, embora fosse ao longe, mas o meu coração batia cada vez mais rápido, a avó sorria e dizia:
Avó: «Minha filha, meu filho, que bom os ver!»
A minha avó era a mãe da minha mãe, mas o meu pai era como se fosse seu filho os meus pais começaram a namorar muito cedo, dois anos antes de eu nascer o meu pai perdeu os seus pais e a partir desse dia a minha avó trata – o como seu fosse seu filho.
Sentia-os cada vez mais perto, já conseguia ouvir o barulho dos seus pés a andar cada vez mais rápido, mais rápido, mais rápido….
Abracei a minha mãe com tanta força que acho que ela ficou sem ar, o meu pai chamou-me logo:
Pai: «Lu-Lu então não vens dar um beijo ao papá!»
Naquele momento não disse nada, porque o meu pai não tinha feito por mal, mas depois pensei um bocado e vi que o meu pai ainda pensava que eu era uma menina pequena, sim porque na minha idade ser tratada por Lu-Lu e o meu pai auto – personalizar-se, por “papá”, não é normal, apesar de eu não ter vergonha, além domais eu é que comecei a chamar o meu pai por “papá”, por isso a culpa é minha, acostumamo-los a isso e depois vimo-nos queixar.
Ser filho único é muito complicado!
Que grande surpresa!
Depois do nosso encontro à porta do aeroporto fomos para o hotel onde os meus pais estavam.
Quando cheguei à porta pensei que fosse passar o natal num palácio, o hotel era tão grande e brilhava tanto, que encandeava. Os meus pais chegaram ao balcão e começaram a fala aquela língua muito estranha o “cuéco”. Depois o senhor que falava com os meus pais deu-lhes uma chave e fomos todos para o quarto deles, eu também gostava de ter um quarto assim, porque aquele quarto parecia uma casa, tinha sala, WC, cozinha, bar, e tinha uma mesa com o jogo das damas e cartas eu perguntei a minha mãe:
Eu: «Mãe, mora aqui algum rei?» Disse com um sorrisinho.
A minha mãe não me respondeu apenas retribui-o o sorriso, porque percebeu que eu estava a brincar.
Depois de nos acomodar, fomos jantar a um restaurante, que ficava na praça central, afinal aquele país com um nome muito estranho não era assim tão mau. No meio do jantar fizemos um brinde e foi ai que a avó que nunca é dessas coisas pediu a palavra:
Avó: «Bom, como sou o elemento mais velho desta família, queria dizer que hoje passa-mos coisas muito boas e outras menos boas, mas não vou nunca esquecer o acto da minha neta Lucy, sim porque se não fosse ela nós não estaríamos aqui, hoje esta menina que já se tornou moça, deu-nos uma lição muito grande e eu que pensava que já não ia aprender muito mais nesta vida, hoje aprendi muito com ela. Muito obrigada Lucy! Afinal cresceste!»
Eu não sabia o que dizer, apenas agradeci e dei um beijo na minha avó. A minha mãe olhava para mim com doçura, o meu pai tinha no olhar a pequena tristeza de eu nunca mais lhe chamar “papá”, e o Leo não disse nada, mas eu percebi que ele tinha vontade de o fazer.
Eu: Cresci! Cresci! Cresci!
Gritava o meu coração, com vontade de voar!
*Este texto foi criado quando tinha 12 anos
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